Eu a vi. Ela me viu. O mundo parou. Senti-me sendo puxado na direção dela. E estranhamente percebi que ela sentiu o mesmo. Nem eu e nem ela conseguíamos parar de olhar para outro. Era diferente, eu não percebia os traços físicos, pela primeira vez, não era para o tamanho ou não tamanho dos dotes que eu olhava. Era para ela. Para o fundo infinito das pupilas castanho-escuro. O redor perdeu a cor e seu contraste aumentou a cada milésimo de segundo focado nos olhos imóveis dela. O trem apitou anunciando a partida e começou a se mover. Assim como eu, por dentro do trem, comecei a andar lutando contra o movimento natural da imensa máquina. Ela estava na plataforma oposta e começou a andar também. Nossos olhos não desgrudavam. Nossas bocas não conseguiam proferir um som. Um único som. Nossos corpos, involuntariamente, lutavam para não perder a possibilidade de contato, de fusão. Pareceu uma eternidade e ao mesmo tempo uma respiração. Ela parou no fim da plataforma e eu parei no último vagã...
Prefácio Na busca por duas mãos descobri que estou ficando paranoico. Ao escutar os timbres da sua voz vibrando o espaço que nos separa, espasmos percorrem meu corpo agonizando o peito e estralando as veias do coração. Corro ao banheiro para vomitar socos na parede, os ossos do meu punho doem e eu não sei se isso é bom ou se dói. Tomei consciência que o amor é um vírus inserido no coração, cujos efeitos patológicos não se resumem apenas ao corpo, e por essa razão aritmética sem solução, morre-se de amor lenta e vagarosamente. Cada “não” acumulando-se sobre outras dezenas de “nãos” semeiam um ódio petrificado e infestado de raiva. Seus traços então se desfazem tornando-se enxofre e sangue. O sangue dos meus próprios dedos. Te odeio como nunca odiei ninguém, e odeio a vida como nunca odiei outra coisa. E odeio tudo numa vontade constante de autodestruição. Não faz diferença seu sorriso sobre coisas vãs porque não mais desenvolve-se em mim sentimentos positivos. O único medo que me rod...
-Ei, eu sempre te vejo almoçando sozinho, posso me sentar? -Claro que sim, fique a vontade. Após algum tempo ele resolveu conversar. -Você é um pouco estranho, eu sempre quis perguntar. Qual sua religião? Por que sempre começam com essa? – Pensei. -Esta é uma pergunta difícil para mim. Eu simpatizo com várias e retiro o que cada uma tem de útil. O Samsara, a meditação e o Dhammapada do Budismo. O amai ao próximo como ama a si mesmo de Jesus Cristo, as sete leis herméticas do Hermetismo, a reencarnação citada em diversas religiões como o Hinduísmo, Espiritismo e Umbanda. O conhecimento sobre planos de existência das duas citadas anteriormente. A filosofia por trás do Yin Yang no Tao. E algumas outras menos difundidas atualmente. -Quais? Eu sorri enquanto apanhei comida com o garfo, enfim disse: -Outras. Após algum tempo ele disse algo sobre um casal homossexual se beijarem no ponto de ônibus quando ele estava vindo ao trabalho. -Normal - eu di...
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