Adeus

Naquele dia meio nublado os tons da música que ouvia coloriam seu coração de preto e vermelho. Indistinguível dizer a mais predominante, impossível dizer qual predominava mais: a dor ou o sangue? 

Mas não era dos maus momentos que lembrava. Claro que não, a mente humana tem esse sistema estranho no qual elimina aos poucos as más lembranças, enaltecendo as boas. Talvez um artificio para suportamos o passado, ou quem sabe os resquícios da eterna busca pelo sorriso derretido em memórias.

Infelizmente não sabemos quando estamos criando uma lembrança eterna. Quando está a acontecer tudo parece tão normal exceto, é claro, pelas batidas do coração tão estranhas, ecoando pelas entranhas do momento que se vai. Dias depois, lembramo-nos daquele momento como um instante de felicidade, lembramos em fracas imagens que quase não se mantém. Somos lembranças ou somos humanos? Somos o que lembramos ou o que conseguimos viver? A vida é um pote de paradoxos sem fim, felizes os estúpidos e idiotas que vivem sem pensar e sentir.

Naquele dia meio nublado... Entrando em crepúsculo e neblina. O coração não aguentou o que vislumbrou no futuro: a espera. Decidiu então, começar o processo de adeus, de solidão e talvez da inexistência. Os dias são flores azuis com espinhos ocultos pelas suas grandes pétalas. Os dias de espera são flores negras... Ele já conhecia aquilo, e não ia de forma alguma passar por aquilo novamente. Em mente via em lembranças que ela era, o sorriso dela em infinitos replays. Estava preso em um ciclo de imagens que insistiam em nunca enfraquecer, e um perfume singular que ainda repousava dentro do seu nariz. Tudo dela é inesquecível. Tudo dela está guardado nas memórias do coração, àquelas que não somente se vê, mas se sente num eterno amanhecer sem fim.

Teria que conseguir dizer ou ao menos soletrar: adeus. Mesmo que as letras discordassem do coração. Ela jogaria o amor fora tão facilmente como se expira o gás carbônico. Aprenderia o que dentro de si já sabe por essência: Viver por si mesma e ser feliz ao menos por meros momentos. 
E com o passar do tempo, talvez, a palavra soletrada seja aos poucos levada pelo vento, para algum lugar além do horizonte.

L.A.

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